1º mapa de ciclorrotas amplia bases para a estruturação
do planejamento cicloviário da capital paulista
Fernando Sciarra
Bicicleta é tudo de bom – veículo limpo, saudável, prático, versátil. Em São Paulo, utilizá-la como meio de transporte é um desafio que, a cada dia, torna-se mais contornável aos olhos de quem busca opções alternativas para o alcance de qualidade de vida. Com o objetivo de facilitar o tráfego das magrelas pela cidade, um grupo de ciclistas experientes se uniu ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) para traçar as rotas mais adequadas para o uso da bicicleta na região do centro expandido da capital paulista. No dia 29 de outubro, foi lançado o mapa oficial de ciclorrotas de São Paulo em sua primeira versão. O projeto pioneiro no Brasil contou com o financiamento da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação (SEME) e com o apoio técnico da TC Urbes. Foram seis meses de trabalho para mapear ciclorrotas em 28 distritos, da Vila Leopoldina, na zona oeste, à Vila Prudente, na leste; de Moema, na zona sul, a Santana, na norte.
O trânsito caótico, a precariedade do sistema de transporte público, a poluição e o estresse são causas de uma transformação de consciência. São milhares de ciclistas a percorrer ruas e avenidas da metrópole, desenvolvendo métodos de convivência com motoristas, pedestres e motociclistas. Leandro Valverdes, 33 anos, integrante da equipe de pesquisa do CEBRAP, ciclista desde 2001, esclarece que a finalidade do projeto é transmitir informação para o ciclista. “O mapa será útil para quem já está experimentando as ruas, que já pedala há algum tempo, que possui alguma afinidade com as estratégias de locomoção no trânsito”, diz.
Ciclorrotas são compostas por vias compartilhadas, ciclofaixas e ciclovias. Bicicletas são compatíveis com transporte público. Uma infraestrutura simples, composta por bicicletários e terminais intermodais, é o suficiente para aumentar o número de usuários. “Isso não é uma coisa nova. Há lugares, cidades no exterior, com mapas para ciclistas. No Brasil, não conheço nada parecido, mas em São Paulo houve um projeto chamado Ciclorede, idealizado, na época, por Arturo Alcorta e Cleber Anderson. Foi um piloto do que fizemos depois”, afirma Valverdes.
O ciclista esteve na Inglaterra para se informar sobre rotas recomendadas e tipo de metodologia que os ingleses haviam aplicado ao projeto realizado em Londres. “Descobri que não havia metodologia, mas um trabalho colaborativo. A instituição que corresponde a Ciclocidade londrina, a London Cycling Campaing, possui 11 mil membros. Havia umas dez categorias de rotas, o mapeamento era complementar, todos enviavam as suas sugestões, o levantamento de informações anterior às saídas de campo era muito completo”, relata.
Valverdes comenta que os envolvidos no projeto tentaram reproduzir a proposta em São Paulo. “Coletamos várias informações antes de circular pela cidade. Fizemos umas escalas por distritos, percorrendo todo o centro expandido. Fizemos também entrevistas com ciclistas que passavam por bicicletarias, sondamos com os usuários, selecionamos pontos de interesse, vias próximas a escolas, espaços de lazer como museus, teatros, cinemas, estações de metrô e de trem”, afirma.
Alguns dos critérios estabelecidos para a seleção das ciclorrotas foram vias largas e de velocidade reduzida, arborização e altimetria. “Esse é um mapa dinâmico, sempre estará aberto para aperfeiçoamento, pois as características das vias não são fixas, as alterações são uma constante”, diz o pesquisador, que ressalta a importância de haver uma desmistificação do uso da bicicleta como meio de transporte urbano. “Existem resistências à topografia da cidade, a fatores como suor, tempo e segurança. Todos eles são contornáveis, embora a falta de respeito dos motoristas e a sua inacessibilidade em dividir às ruas seja um problema.”
Monitoria
Juliano Pereira
Entre o final de outubro e início de novembro, houve sessões de monitoria gratuitas que serviram para apresentar o mapa de ciclorrotas para as pessoas. O cronograma definido incluiu passeios pelas vias selecionadas e oficinas de mecânica básica de bicicleta. Juliano Pereira, personal trainer de 39 anos e ciclista há mais de 20, participou de uma das sessões de monitoria do dia 30 de outubro. “Achei bem bacana. O monitor foi muito didático, paciente, deu uma série de toques. Havia uma moça no nosso grupo que tem bicicleta, mas sente medo de andar sozinha no trânsito. Com a orientação que recebeu, entre as quais a de procurar grupos como os bike anjos, ela se sentiu super à vontade, ficou animada”, afirma.
O percurso de 12 km foi delimitado durante a sessão. Todas as vias utilizadas foram mapeadas como ciclorrotas mais adequadas, demarcadas em verde no mapa, e de tráfego intenso, em vermelho. “Fiquei sabendo do projeto pelo site vadebike.org, sou ciclista há mais de 20 anos e considero de extrema importância este trabalho de mapeamento e monitoria das ciclorrotas. As pessoas que já pedalam na ciclofaixa, por exemplo, mas que tem medo de sair de casa em dias de trânsito normal, a partir de agora terão condições de fazer as suas primeiras tentativas. O mapa oferece várias opções de percurso por ruas mais calmas, é um excelente estímulo”, diz Juliano.
Pontos de distribuição
Sedes do CEBRAP e SEME. A tiragem é limitada. Foram disponibilizados cerca de mil mapas por conta do material ainda estar em fase de testes. A previsão do lançamento da versão final é dezembro de 2011 ou início de 2012.
Mais informações sobre as ciclorrotas em